Uma investigação da agência Reuters revelou que os cães-robôs mais famosos da China nasceram de pesquisa financiada pelo Exército dos Estados Unidos. A Unitree Robotics, uma das maiores fabricantes mundiais de robôs humanoides e quadrúpedes, baseou os projetos de seus robôs de maior sucesso em inovações pagas pelas Forças Armadas americanas, segundo um ex-funcionário da área de defesa e três pesquisadores envolvidos no projeto.
RESUMO DA NOTÍCIA
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Investigação da Reuters revela que os cães-robôs da Unitree nasceram de pesquisa financiada pelo Exército dos EUA. Entenda como a China dominou o mercado global de robôs quadrúpedes.
O modelo Go2, lançado em 2023 por US$ 1.600 (cerca de R$ 8.300), ajudou a empresa a dominar o mercado global de robôs quadrúpedes. A mesma Unitree acaba de estrear na bolsa de valores de Xangai com avaliação de cerca de US$ 9 bilhões, depois de vender mais de 18 mil quadrúpedes e 5,5 mil humanoides no ano passado, segundo documentos da empresa.
Entre 2010 e 2020, o Exército dos Estados Unidos financiou a Aliança de Tecnologia Colaborativa em Robótica, que reuniu a Universidade da Pensilvânia, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a Boston Dynamics, o laboratório da agência espacial americana (Nasa) e outras instituições. Em 2016, pesquisadores americanos eliminaram as pesadas caixas de engrenagens centrais e colocaram motores nas pernas dos robôs, melhorando a capacidade de detectar e responder ao terreno. Em 2019, o laboratório do MIT apresentou o Mini Cheetah, com capacidade de dar saltos mortais para trás. Ben Katz, que ajudou a desenvolver o robô, disse à Reuters que as dimensões da série Go da Unitree eram quase idênticas, ao milímetro, às do Mini Cheetah.
Gavin Kenneally, ex-pesquisador da Universidade da Pensilvânia e hoje fundador da Ghost Robotics, afirmou que a pesquisa financiada pelo Exército se tornou, basicamente, o primeiro robô da Unitree que teve alguma escala. João Ramos, pesquisador do laboratório do MIT na mesma época, reconheceu que a empresa chinesa copiou a forma, a estrutura e o design do Mini Cheetah, mas destacou que ela fez engenharia adequada para aperfeiçoar um robô produzido em massa. Já Jaret Riddick, ex-diretor do Laboratório de Pesquisa do Exército americano, disse que o projeto deu o primeiro passo na indústria de quadrúpedes dos Estados Unidos, mas, sem apoio para a produção em larga escala, a Unitree acabou ocupando esse espaço.
A comparação entre as duas empresas mostra a diferença de escala. A Ghost Robotics entregou cerca de 1.000 robôs Vision 60, vendidos por mais de US$ 165 mil cada, principalmente para clientes militares. Já a Unitree vende sua série B por menos de US$ 100 mil nos Estados Unidos. Nenhuma empresa americana produz esses robôs em escala, nem mesmo a Tesla, de Elon Musk, que exibe protótipos do robô Optimus há anos. Em junho, o Pentágono incluiu a Unitree em uma lista de empresas militares chinesas, e em julho a agência americana de comunicações (FCC) proibiu a importação de futuros modelos de robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior, incluindo os da Unitree. A China ameaçou retaliar a proibição.
A história mostra que publicar pesquisa aberta não basta para construir uma indústria. Desde 2015, com o plano de dez anos do presidente chinês, a China canaliza capital para a manufatura avançada, domina minerais essenciais e reúne fornecedores de motores e componentes perto da sede da Unitree, em Hangzhou. Analistas classificaram o fracasso dos Estados Unidos em comercializar a própria pesquisa como uma oportunidade perdida. Para o Brasil, a lição é dupla: robôs mais baratos ampliam o acesso à tecnologia, mas também aumentam a dependência de fornecedores estrangeiros em um setor estratégico que cresce rápido.
Apesar da promessa de uso civil, a televisão estatal chinesa já exibiu robôs da Unitree ao lado de tropas e uma versão armada com fuzil acoplado. Em 2022, a empresa assinou uma carta aberta com empresas americanas se comprometendo a não transformar robôs em armas. No mesmo ano, o Exército dos Estados Unidos obteve uma isenção para comprar dois cães-robôs da Unitree por falta de alternativas americanas de qualidade satisfatória. No dia a dia, esses robôs também aparecem como cão-guia para pessoas com deficiência visual, em operações de vigilância e busca, e a China planeja até levar cães-robôs à Lua para ajudar na construção de uma base com astronautas até 2035.
Pesquisadores ouvidos pela Reuters afirmam que as dimensões da série Go são quase idênticas, ao milímetro, às do Mini Cheetah, do MIT. Eles reconhecem, porém, que a empresa chinesa fez engenharia própria para produzir em massa.
O Exército dos Estados Unidos financiou a pesquisa?
Sim. Entre 2010 e 2020, o Exército americano financiou a Aliança de Tecnologia Colaborativa em Robótica, com Universidade da Pensilvânia, MIT, Boston Dynamics, Nasa e outras instituições. Os resultados foram publicados abertamente.
A Unitree vende robôs para uso militar?
A empresa afirma que seus produtos são civis e assinou uma carta aberta contra o uso de robôs como armas em 2022. A televisão estatal chinesa, porém, já exibiu robôs da Unitree com tropas e uma versão armada com fuzil.
Quanto custa um cão-robô?
O Go2 da Unitree custa US$ 1.600 (cerca de R$ 8.300). A série B sai por menos de US$ 100 mil nos Estados Unidos, enquanto o Vision 60 da Ghost Robotics é vendido por mais de US$ 165 mil.
Os Estados Unidos podem comprar robôs chineses?
Em 2023, o Exército americano obteve isenção para comprar dois Go2 da Unitree por falta de alternativas americanas de qualidade satisfatória. Em julho de 2026, porém, a FCC proibiu a importação de futuros modelos.
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